domingo, maio 13, 2007

Papel Fraco.

Ah, esse personagem há de morrer no próximo ato. Ele, com essa cara sisuda, esse ar esnobe, superior, estraga o clima de comédia. Hei de matá-lo cruelmente na primeira oportunidade. Quero poças e poças de sangue cenográfico. Sangue desse cara chato. Quero pra ele uma facada, punhalada, uma morte lenta e sofrida. Um "gran finale", seus segredos revelados num rubro último suspiro. Quero esse crápula finado, em seu leito um epitáfio mal grafado. Seus dias contados, seu olhar horrorizado.
Ah, como há de ser engraçado. Quando fecharem-se as cortinas, serei ovacionado. O autor aqui sou eu, mato quem eu quiser nessa cena de teatro.
Ainda que a morte me leve um pedaço, o papel que eu faço, os destinos que traço. Nessa comédia de humor negro, pinto o nariz com sangue, sou palhaço.
Aplauso e assassinato, holofote, morte, espetáculo.

Sonido: Les Professionnels - Air

Imagem: Andreas Gefe .... http://www.clandestina.com

3 comentários:

Maria disse...

Cena rasgada

De que adiantou todos os testes, todos os cursos, todas as oficinas e até mesmo toda aquela tua experiencia de vida? Agora que você conseguiu o papel de um mero coadjuvante, equivocou ou ofuscou a opinião do diretor do espetáculo e ele ameaça te matar em cena aberta, em teu lugar, um belo funeral, ao invés de teu rosto brilhando no palco, será uma lápide de mármore com letras douradas, escrito assim: “Aqui jaz um medíocre ator de teatro e da vida”, dos aplausos e da fama, restará soluços e lembranças vagas de tua triste “visage” com uma lágrima escorrendo de teu olho, face abaixo.
Acorda PORRA ! Vira esse jogo de cena, muda o roteiro desse espetáculo, muda a opinião desse diretor sádico e sanguinário. Faz-se brilhar nesse palco com refletores quase desligados, acenda todos, um a um, e quando a luz dominar toda a cena, esqueça o sangue cenográfico, ele é frio e sem vida, grafe sua fala em negrito e com toda a força de teus músculos cardíacos, infle todas as tuas veias com teu sangue verdadeiro e quente, faça sua face se enrubescer ao invés da maquiagem esbranquiçada do script, grite seu texto verdadeiro, esqueça as paginas decoradas, pule, corra, se faça melhor do que você já é. Ai sim, você chegará a todos os cantos do palco, da coxia, do camarim, do fosso e principalmente aos corações e às almas de todos aqueles que te amam, te desejam e te querem. Mesmo assim, se ele perpetuar à idéia de te roubar a cena, não desista NUNCA, corra mais rápido, pule mais alto, grite, chore e berre com as notas mais elevadas que sua garganta possa atingir.
Se nada disso for o suficiente para você estrelar este show melodramático de merda, avance mais para a platéia, fale ainda mais altivo para todos, acenda todas as luzes da sala, rasque todas as cortinas antes que ele as feche para você e termine o seu espetáculo antes da hora. Agora sim, seu papel se firmará neste roteiro cambaleante, erguido e sustentado nas pernas de pau do palhaço que existe em cada um de nós e seu show não acabará jamais. Você será autor do seu personagem/texto e todo o "jeu de rôle" de sua vida será verdadeiro, teu sangue se fará sentir por toda a extensão de teu corpo aquecendo tua alma de ator/ser em um papel superior.

Rayanne disse...

É o quê, Vítor?

Se o cara é tão chato assim, por que raios um gran finale? Hã, vai entender... Gente chata morre chata, de forma chata. Tão chata, mas tão chata que, se bobear, ninguém percebe.

Vítor Azevedo disse...

Obrigado Maria por ter mudado o sentido do texto. Faz parte do ato de ser lido. Comunicar algo, principalmente em textos subjetivos como este, não é nada fácil.

Mas seu comentário dá um ótimo texto de auto-ajuda.

Abraço.