sexta-feira, novembro 21, 2008

Daniela ou Apenas Vivo

Ela atribuía a si o frescor que havia trazido aos meus dias. Chegava a se gabar por ter resgatado em mim a possibilidade de uma vida novamente interessante. Eu assistia ao dias com um sorriso quase perene, como que agradecido por tudo que a presença dela significava naquele tempo. Daniela, com maestria, usava o auto-reconhecimento como artifício para atrair cada vez mais admiração. Um sujeito tão tímido quanto eu só podia me sentir protegido pela segurança que ela transmitia. E tinhas outros atributos, muitos outros que não vêm ao caso falar agora.
A vida ao lado daquela pequena mulher (tinha 19 anos quando nos conhecemos) foi de uma vertiginosa intensidade. Hoje percebo que foi uma experiência breve, porém, por mais relutante que eu seja, ainda trago marcas dos nossos dias. Algumas atitudes, alguns lugares, minha auto-piedade, memórias.
Daniela me deixou no meio de uma visita ao Jardim Botânico. Debaixo das palmeiras reais, soltou minha mão, fez um silêncio grave, em seguida disse que não me amava mais..Beijou-me a barba e foi embora. Ainda tive tempo de ver uma lágrima em seu olho castanho. Minha reação? O que se esperar de uma velho de 51 anos subitamente abandonado por uma garota de 19, quase 20?
Eu fiquei imóvel. Permaneci assim durante uns 2 minutos, vendo-a caminhar apressada até sair do meu campo de visão. Não chamei por ela, não abri a boca, não chorei. Permanci ali, inerte, uma vida inteira. E nunca mais vi Daniela. Nem notícia, telefonema, carta, não, nunca.
Tornei-me um velho petrificado. Sou uma pessoa vazia, desde então. Não me comovo mais com nada, exceto quando visito o Jardim Botânico (e faz alguns anos que eu não ando por aquelas bandas). Até das lembranças me blindei. Meus dias passam mais rápido quando levo o Elvis, meu pincher, pra passear no calçadão. Uma partida de xadrez na praça, uma visita à banca, olhar o mar de manhã cedo. Gosto também de andar de metrô, nem precisa de destino certo. Mesmo que literal, me inspira movimento. E isso me parece imprescindível para não morrer.
Tenho um coração saudável para as pessoas de minha idade. Nunca fui chegado em vícios. Só bebi na época em que estava com ela, lá se vão o quê, 10 anos, eu acho. Não me lembro bem. Relembrar certas coisas não é mais tão fácil quanto antes. Mas eu falava do coração. Ontem pensei que ia ter um infarto ao chegar em casa. Ontem à tardinha. Tombado na poltrona, senti meu peito se dilacerar, uma dor atroz. Paradoxalmente, há tempos não me sentia tão vivo, tão sensível.
Horas antes, no metrô, três estações antes da que habitualmente desço, uma criança correra em minha direção. O garoto sorriu pra mim e pôs a mão no meu braço. Eu não me considero um velho ranzinza, mas não me enterneci com a cena, não fui cortês. Ele então correu até uma mulher que estava sentada ao lado da porta do vagão. Ela o pegou no colo e observou para quem o seu filho apontava. Reconheci na mesma hora aquele olhar acastanhado. Daniela sorriu, como uma forma de assentir a simpatia do pequeno com aquele senhor comum sentado no metrô. Instintivamente me encolhi no assento reservado para idosos, como se estivesse tomado de extrema vergonha de mim. Talvez não fosse isso, mas assim reagi. Enquanto espiava de soslaio aquela outra Daniela, ela, mãe dedicada, brincava com seu filho alguns bancos à frente.
Acabei descendo uma estação antes da minha, meio atordoado. Teria ela me reconhecido? - Não, não é possível - remoía dúvidas. Estaria ela casada? Será que era feliz? Talvez ainda carregasse a segurança inabalável das mulheres bonitas. Nunca o caminho para casa havia sido tão longo.
Ontem eu podia ter morrido. Eu queria ter morrido, na verdade. Mas estou vivo, fisiologicamente falando. Aquele encontro no metrô levou de mim toda a fortaleza, a blindagem do íntimo. Hoje acordei e não quis sair da cama. Elvis latiu a manhã toda. Até trouxe a coleira pra cima do meu travesseiro. Ainda fragilizado pela dor da última tarde, levantei e olhei pela janela do apartamento. O bonito dia que se descortinava lá fora compreendia uma espécie de justiça poética para os últimos acontecimentos. Uma recompensa. E alguma coisa me dizia: vá gastar o tempo que ainda te resta.


sábado, agosto 23, 2008

Cheio e Vazia ou Vasos Comunicantes

Sob a incandescência morta, o silêncio prevaleceu, farto, demorado se comparado à rapidez com que o sol se punha. O rio que é mar se prateava em ondas e pequenos caranguejos assistiam a tudo. O espetáculo diário de assistir a cheia e esvaziar-se em seguida. Quase não aceito a princípio, o despretensioso convite para observar o curso da natureza acendeu uma dúvida fora de contexto. A interrogação surgiu da paisagem: seria a amizade biodegradável?!
Uma onda bateu forte nas pedras nessa hora e todos os bichos vivos se esconderam entre as frestas. Teorias díspares surgiram instantaneamente na circunferência chapada do sol, como que me iluminando. A amizade é tão forte e duradoura como a rocha na beira do mar, pensei, desculpando-me por achar numa figura sem vida e cristalina demais motivo de comparação com tal sentimento. Outra onda, outra tese. A amizade é, sim, biodegradável, tão mortal e frágil como os caranguejinhos que ali estavam. Biodegradável como o amor, como a mágoa.
O silêncio ainda pairava quando o sol se apagou no horizonte e eu, conflito de terra e céu, resolvi que a dúvida era o melhor benefício. É difícil tirar conclusões quando o assunto é amizade. É melhor serenar ao vento de uma tarde amena do que se atirar na água revolta, encharcando tudo o que foi vivido. A natureza dá lições a todo momento.
O silêncio é a mais sábia atitude. Foi a nossa prece, a nossa forma de reverenciar aquela tarde tão intensa em que as palavras não se fizeram necessárias.
Esvaziemo-nos como a maré.


Solar

O sol se pôs
E o céu, um pastel só,
Pincel de nós,
Anoiteceu depois.

segunda-feira, junho 30, 2008

Texto dos Outros IV

Seu Pensamento

A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na terra
ou vento no cabelo?


A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?

Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?

A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?

A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?

Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?


Adriana Calcanhoto

sábado, junho 07, 2008

Novamente


E daí que às 3h e pouco ele chegou, o mundo não se acabou, mas eu não consegui mais dormir. No silêncio da madrugada olhei as ruas vazias, senti o frio da chuva iminente, bebi copos d'água, mas nada mudou. Exatamente como nos últimos dias, nada mudou. Nem a falta do que fazer e dizer, nem a programação da tevê, o excesso de travesseiros na cama, a distância não-medida, a minha inércia. 20 e poucos anos de relacionamento e é com isso que me deparo no meio de mais uma madrugada mal-dormida. Perguntei-me a noite toda "até quando", "o que me falta", "por que não" e não obtive resposta. Ou talvez não quis aceitar o provável rumo que as coisas poderiam tomar. Só sei que me enrolei da cabeça aos pés ao lembrar das coisas boas que vivemos juntos todos esses anos. Dos prazeres que a vida nos cedeu. Do gosto que as coisas tinham no começo. Me encolhi na cama recordando o quanto fomos felizes e o quanto ainda pudíamos ser.
É tarde. Agora me parece que tudo isso é uma referência às avessas que insiste em aparecer nas nossas diferenças, na nossa falta de viço e desejo, na incapacidade de ser sincero um com o outro, por puro medo de ferir o que já está longe da cura. Às vezes me sinto dentro de um circo, parte de um espetáculo onde equilibro pratos enquanto engulo espadas domando elefantes. Onde falta a maquiagem, sobra cena e sorriso e calo a boca. Sem aplausos.
Sou um rascunho do que, um dia, sonhei ser, uma teoria questionada, ultrapassada por outras verdades. Uma pessoa que desvia os fatos para não se sentir desviada. Alguém preso dentro de si mesmo, por acomodação ou receio. Ou melhor, por dúvida.

Amanhã eu vou acordar com olheiras fundas e quando ele resolver falar comigo vai ser para enfatizar minha aparência cansada. Ou perguntar-me o que vamos comer. Eu, por minha vez, baixarei a cabeça e prepararei duas torradas. Sentarei na mesma mesa em que comemos diariamente em silêncio e tomarei o mesmo suco sem açúcar. Sem olhar nos olhos dele. Sem olhar para nada.
O que será de mim nos dias que tenho pela frente não sei. Vou levando assim até não sei mais quando...
Não é disso que vou morrer. E essa é a única certeza que tenho.


Imagem: João Figueiredo


sábado, março 15, 2008

Rádio

Elisa era jovem demais naquela época. Dezenove anos vividos debaixo da asa da mãe, dentro de casa, lavando, passando, cozinhando. De um dia para o outro, seu pai arranjou-lhe um noivo, homem do qual ela nunca recebera um olhar ou sentira o cheiro de perto. Elisa era jovem demais e frágil da cabeça. Passava os dias ao pé do rádio. Ângela Maria era sua melhor amiga. Suspirava sonhos de ser amada, e num estalar de dedos, plec!, estava noiva, a se casar com um homem que não aparecia nas canções que ouvia.
O sisudo Murilo marcou a data da boda, acertou os preparativos com o pai da moça, comprou as alianças. Elisa era o seu objetivo de vida. Ela continuava sonhando sonhos de jovem dona de casa, Ângela Maria, pratos e lençóis sujos, o rapaz com a leveza de um suspiro. Elisa devaneava pela paixão que não vinha. Os olhares de Murilo não chegavam ao seu coração e a cordialidade do futuro marido chegava a lhe causar repulsa.
Chegada a grande data, igreja enfeitada, terno e gravata, sapato engraxado, brilhantina no cabelo. Murilo suava bicas e não conseguia esconder o nervosismo. Tudo pronto, família de um, família da outra, padre, padrinho, madrinhas, pajens, todos esperando a noiva. Ao som dos sinos ecoando na pequena vila, Elisa subiu na lotação que partia para a capital, trajando o lindo vestido longo e branco que pertencer a avó.
- Lá vem Elisa, louca do juízo! Vai pra cidade ser cantora do rádio?! - perguntou um maldoso passageiro.
Os convidados continuaram sentados, o padre entediado, os padrinhos agoniados, Murilo olhou compenetrado as alianças enquanto a daminha de honra jogava-lhe um punhado de arroz sobre o cabelo ensebado.




Só pra atualizar

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Rindo Se Diz Coisas Sérias.

Digo que o amor acabou no momento em que virei piada, a mesma piada diária e sem graça que eu não nasci pra ser. Lembro que, grosso e esparramado por fora, aos trambolhões, me mandei daquela arena de indiferença, por dentro muito certo da chacota que abdiquei de repetir e repetir. Espero que riam mais e melhor, de muitas outras pessoas e de si mesmos também. E que não chorem depois.

Toda comédia romântica termina bem?!





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O Amor Acaba - Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois do teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferente dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga num cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o polén e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta do nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.



* Paulo Mendes Campos diz muito do que eu sinto agora. E o melhor, ele pode e deve ser levado à sério. Um brinde aos sensíveis, com pouco gelo e sem limão enfeitando o copo!


Sonido: Rindo Se Diz Coisas Sérias (pós-valsa) - Max de Castro