sábado, março 15, 2008

Rádio

Elisa era jovem demais naquela época. Dezenove anos vividos debaixo da asa da mãe, dentro de casa, lavando, passando, cozinhando. De um dia para o outro, seu pai arranjou-lhe um noivo, homem do qual ela nunca recebera um olhar ou sentira o cheiro de perto. Elisa era jovem demais e frágil da cabeça. Passava os dias ao pé do rádio. Ângela Maria era sua melhor amiga. Suspirava sonhos de ser amada, e num estalar de dedos, plec!, estava noiva, a se casar com um homem que não aparecia nas canções que ouvia.
O sisudo Murilo marcou a data da boda, acertou os preparativos com o pai da moça, comprou as alianças. Elisa era o seu objetivo de vida. Ela continuava sonhando sonhos de jovem dona de casa, Ângela Maria, pratos e lençóis sujos, o rapaz com a leveza de um suspiro. Elisa devaneava pela paixão que não vinha. Os olhares de Murilo não chegavam ao seu coração e a cordialidade do futuro marido chegava a lhe causar repulsa.
Chegada a grande data, igreja enfeitada, terno e gravata, sapato engraxado, brilhantina no cabelo. Murilo suava bicas e não conseguia esconder o nervosismo. Tudo pronto, família de um, família da outra, padre, padrinho, madrinhas, pajens, todos esperando a noiva. Ao som dos sinos ecoando na pequena vila, Elisa subiu na lotação que partia para a capital, trajando o lindo vestido longo e branco que pertencer a avó.
- Lá vem Elisa, louca do juízo! Vai pra cidade ser cantora do rádio?! - perguntou um maldoso passageiro.
Os convidados continuaram sentados, o padre entediado, os padrinhos agoniados, Murilo olhou compenetrado as alianças enquanto a daminha de honra jogava-lhe um punhado de arroz sobre o cabelo ensebado.




Só pra atualizar

Um comentário:

Priscilla disse...

Esse seu texto me lembra aquela música "Lindonéia", da Nara Leão, ja ouviu?
srsr
:^)