Triste é rimar amor e dor. Pior é guardá-los juntos no mesmo lugar, na frente do esconderijo um sorriso largo, uma alegria fugidia, uma lua minguante no rosto sincero. Triste é sentir o peso das mudanças, da desconfiança, da desesperança. Pior é ter medo. Tenho pena de quem tem medo e digo isso do alto da minha covardia. Triste é não sentir nada depois que a lágrima cai, é ficar vazio de pensamento, é só conseguir sentir frio no meio da madrugada. Desabar, pedaço por pedaço, cair, em desuso, em contradição, do décimo quinto andar. Triste é morrer quando ainda se tem muito para viver. Pior é perder o sentido das palavras. É ver o trio se tornar dupla desfalcada. É notar que os restos ainda marcam as paredes do lar, lá e cá, e estão impregnados de fluidos, rotinas, emoções, aprendizados. Triste é sentir que eu não sou do amor nem pro amor, que eu pareço nunca ter vez. É ouvir o eco da voz antes de dormir e constatar que o coração soluça, que a decisão não é madura, que o futuro, incerto, escorre pelos dedos. O pior de tudo, meus caros, é continuar rimando amor e dor nessa eterna valsa torta.
Sonido: O Amor É Um Rock - Tom Zé